segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

verde céu, prata lua.

Apaixonei-me pela crônica quando escrever sobre o cotidiano era escrever sobre um sonho. A vida era todo um espetáculo utópico; era subir colinas para ver nascer a maior lua em treze anos, cantar parabéns à meia noite no anfiteatro para um libanês aniversariante ou me perder na capital do mais rico (economicamente e só) país centroamericano.

Certa vez passamos toda uma tarde assistindo aos filmes mais piegas que se pode imaginar. Éramos eu, uma espanhola, uma norueguesa e uma israelense. Uma frase de Nothing Hill nos encantou muito profundamente. Foi a definição dada pelo mocinho ao seu encontro com a mocinha: "Surreal, but nice."

Surreal, mas agradável.

Deste momento em diante, decidimos que não faria sentido algum fazer qualquer intento de descrever nossa experiência nos últimos anos. Sempre que perguntadas, daríamos como resposta "surreal, but nice." E ter como rotina o surreal me fez infinitamente feliz pelo tempo que durou.

Então acabou-se o que era doce e estava eu de volta à cidade de onde havia fugido dois anos antes. Estava eu de volta aos mesmos cafés e clubes e camas. De volta à bucólica capital do país que orgulhosamente representei enquanto vivia como estrangeira.

Senti minha luz desvanecer pouco a pouco e logo me tornei cinza. Cor de cinza e cinza ao vento. Cinza, resto do que queimou. Cinza nada. Eu nada. Eu cinza. Eu sem tesão pelo cotidiano banal de garota planopilotense, sem inspiração.

Até que um dia o sol durou até depois das oito e meia da noite e a lua nasceu enorme no céu dessa Brasília. Foi este o dia no qual me dei conta da beleza que andava passando despercebida diante dos meus olhos. A beleza que há no fim de cada dia vivido.

Imediatamente voltei a me relacionar amorosamente com o agora.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

chá, chai e corrente.

- É que a vida é fluida, B. Não dá para colocar pontos finais...

Aconteceu numa dessas noites quando saímos para falar de um dos tópicos mais abordados em minhas reflexões: o amor. Comia um croissant de queijo e ela deleitava-se com uma daquelas tortas de chocolate que a fazem esquecer que estamos discutindo assuntos sérios, que daquele encontro pode sair a cura para todos os males do coração. Para ela, não há relacionamento mais importante que o do morango com o brigadeiro.

No vai e vem de nossos devaneios, lhe falei de minha necessidade de finais absolutos para que pudesse recomeçar. Ela me tirou as ilusões assim, sem meias palavras. Deixou-me nada menos que desesperada, morrendo de medo de ficar presa para sempre numa rede infinita de histórias inacabadas.

Pensamos em tomar chás para variar o lado gastronômico do encontro. As duas opções eram um chá preto com laranja e um chai aromático de frutas. Pedimos ambos, com a intenção de compartilhar - e também para que não precisássemos passar pelo martírio que é tomar decisões. Ao chegar com as bebidas, sem nem perguntar, a garçonete simplesmente colocou o frugal à minha frente, o negro à frente de minha companheira de dialética.

Enquanto tomava meu doce, doce chá, pensei que talvez a ideia de não-fins não fosse tão monstruosa. Talvez faça mesmo bem para a saúde deixar abertas algumas janelas do passado para arejar. Talvez o doentio seja tentar enjaular recordações e enviá-las em um navio para terras distantes. A adoção dessa nova perspectiva e o calor do chai me envolveram essa noite.

Pena que o sentimento não perdurou. Logo voltei à minha obsessão por finais definitivos, por palavras que marcassem que já não há. Continuei também a sofrer ataques de incerteza e angústia que tratava de curar com torrenciais crises de choro e automedicação alcoólica.

Foi uma carta de longe que me sanou as dores. Uma carta em espanhol sulamericano desde um país centroamericano. E não foi preciso nada mais do que apenas me recordar de um passado não tão distante para que tivesse um dos momentos de maior discernimento.

- Não é a vida que é fluida, meu doce - eu diria - o amor sim o é. O amor tem essa incrível capacidade da água de se converter em diferentes estados dependendo das condições do ambiente. E é essa mutabilidade do amor que faz com que não haja rompimentos definitivos ou paixões eternas.

Quando nossas bebidas chegaram, provamos de cada xícara e foi óbvio o encantamento que sentimos pelas que haviam sido colocadas com perícia científica pela garçonete. Desde o cheiro, passando pela cor e finalmente o gosto... era como se cada receita tivesse sido preparada sob medida. Havia em meu copo o doce de minha ingenuidade perante o viver. Havia em seu copo o sabor amargo das pedras com as quais ela construiu as muralhas em volta de si.

A verdade é que falamos da mesma coisa, eu e ela. Mas não se pode pedir a uma garota que toma chá de frutas a racionalidade, a linearidade, a clareza da que toma chá preto.

jogando tudo fora II

Ele sentou-se na cama de onde eu não desejava sair durante todo o fim de semana. Perguntou-me com ensaiado interesse sobre o meu sentir, sobre o meu amor, sobre o meu pensar. Respondi-lhe com um par de de superficialidades que lhe saciariam a curiosidade ou lhe abateriam a culpa - qualquer que fosse a razão daquela quase demonstração de carinho. Não nos olhamos nos olhos. Seu foco estava na tangerina que ele abria vagarosamente. Meu foco estava num postal que acabara de chegar desde um frio país europeu. Já não somos mais companheiros, parceiros, cúmplices. Nos assemelhamos mais à poeira que sobe na estrada de terra depois da travessia de um automóvel... uma incômoda lembrança do que passou.

esclarecimento.

Viver de arte é cometer absurdos para sempre ter sobre o que escrever.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

onde está o sol?

Não se pode tomar chá com muito açúcar nem comer guacamole com muito sal. Não se pode amar até a morte nem viver fugindo do amor. Não se pode passar tanto dias sem ver a luz do sol ao despertar-se pela manhã.
Já não podia mais olhar pela janela e ver o branco do prédio ao lado perder-se no branco das nuvens que tomaram o céu há semanas. Se ao menos o dia estivesse acinzentado, se houvesse barulho de chuva e cheiro de terra molhada... ah, seria gostoso viver assim. Só que o dia estava branco. Absolutamente branco. O barulho de uma construção por perto me entrava pelos ouvidos sem cessar, o clima estava abafado, sufocante; o dia branco!
Tranquei as portas, fechei as janelas, cerrei as cortinas. Abriguei-me no refúgio de meu sono decidida a sair dali apenas quando o dia não estivesse tão odioso. E por ali fiquei horas, ora lendo ora escrevendo poesia indignada, cartas de amores distantes, crônicas do que já se foi. Fiquei ali, com meu coração apertado, pensando "que vida curta!" depois de receber uma trágica notícia.
Foi de um instante a outro que as cores do quarto mudaram. Um amarelo claro invadiu tudo ao entrar por um pedacinho de janela descoberta pela cortina. Foi tão rápido e ainda assim vi tudo em câmera lenta: os desenhos ao lado de minha cama, a parede ao lado da cama vazia, o armário embutido... de repente todos eles tinha nuances de amarelo em si. Senti tamanha euforia que só pensei em agarrar as cortinas, empurrá-las para fora do meu caminho de luz.
Me faltou tempo para tal. O raio de alegria não passava de um buraquinho no meio daquela multidão de nuvens que insistem em continuar colocando-se entre o sol e minha pessoa. A alva iluminação escassa estava de volta e meu mau-humor também.

to Sarah Kay.

(...)


I just wanted you to know that you've inspired me to take my writings out for a walk. They spent way too much time inside journals, notebooks, word files. They could use some fresh air.