quinta-feira, 20 de setembro de 2012

música de sarau

O álbum começa com "Vazio" e é bem assim que se deveria escutar o CD por inteiro: num vácuo de preocupações. Dessa forma é possível passear pelos sentimentos tão singelos presentes nas letras e músicas de Eros Trovador. Passei uma tranquila madrugada ao som de sua voz.
O calor do cerrado em mês de setembro me impedia o sono, mas em vez de lutar contra o desconforto causado por ele, me rendi. Abri todas as janelas e sentei-me perto do parapeito. Coloquei meus fones cor de rosa e entrei no "Mundo dos Pirulitos de Coração", caminhando com meu "Passo Leve" sobre o "Silêncio Cadente" do "Poeta". Foi um encontro de memórias e sensações que me provocou perguntar-me algumas vezes se não havia sido eu quem havia vivido e sentido aquelas emoções que me estavam sendo recitadas.
É que a vida é cheia dessas poesias, sentimentos e comoções entrecruzadas. E é muito gostoso o sentir compartilhado.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

demasiado fuego I


Segunda-feira, cinco de dezembro de dois mil e cinco. Era a noite de encerramento do Senhor Festival, na Funarte. Era meu aniversário de catorze anos e a primeira vez que eu ia sozinha a um show. Fui ao encontro de minha irmã e um amigo dela, por quem me havia apaixonado pela primeira vez na vida, no auge dos meus... sete anos de idade! Paixão esta que obviamente nunca saiu do campo do platônico.
Cheguei no início do show de uma banda brasiliense que tocava um delicioso ska que me fez dançar do começo ao fim. Quando tomei uns segundinhos para recuperar o fôlego, olhei mais apuradamente para o palco e... neste momento precisei tomar um tempo para decidir que expressão faria jus ao que senti naquela hora; nada me pareceu adequado. O ponto é que me apaixonei perdidamente pelo vocalista. Este amor tornou todo e qualquer outro homem incompleto caso não fosse provido de barba e um nariz bastante proeminente, não tocasse numa banda de rock e não fosse professor de História, além de bacharel em Filosofia.

Sábado, doze de abril de dois mil e oito. Era o show de uma das mais legendárias bandas da existência, percussores do ska. Estávamos eu e mi morocha dançando de olhos fechados ao som do Criolina e ao abri-los de leve, vi que ao meu lado estava o tal vocalista narigudo. Andei em direção a ele e disse que gostava muito do trabalho de sua banda, que tanto as letras quanto o som mexiam muito comigo, que estava presente em todos os shows. Ele agradeceu, disse que era bom escutar isso. Ainda me perguntou um par de coisas, contou que tocaria depois do show principal. Devo dizer que fui totalmente pega de surpresa pela simpatia e doçura do meu muso.
Foi uma delícia absurda ouvir àqueles deuses jamaicanos. Já estava fora de mim de tanto encanto quando a visão daquele homem tão belo se fez plectro em cima do palco. Cantei com ele todas as canções, e agora já não tinha mais os olhos fechados, os tinha bem dentro dos dele, que me devolvia a mirada e sorria de uma maneira a acender fogos em lugares cuja existência eu desconhecia.

Sexta-feira, 14 de setembro de dois mil e doze. Era a noite de um dia no qual passou constantemente pela minha cabeça que havia tempos desde a última vez que havia saído para dançar um bom rock. Como a falta de opções nos leva a fazer sempre mais do mesmo, fui ao antrinho das sextas à noite da capital. Descobri logo antes de sair que seria o senhor supracitado o responsável por comandar a pick up durante um tempinho da noite. Tendo em vista que a última vez que meus olhos haviam pousado sobre ele fora há mais de três anos, fiquei realmente curiosa quanto às reações fisiológicas deste “encontro”.
Conversava com minha gueixa perto das mesas de sinuca e ele passou. Nossos olhares se cruzaram por não mais que dois segundos, ele andava rápido em direção ao backstage. Senti as pulsações do meu coração em treze lugares diferentes, desde o calcanhar até o ombro. A coisa ficou mais séria quando ele estava detrás de todas as aparelhagens DJísticas e eu lá na frente. Nessa hora minha companheira já havia decidido terminar sua noite e eu estava só na pista.

Fechei os olhos e do nada tinha quinze, dezesseis anos outra vez. Meu desassossego era só uma semente, não sabia a dimensão que tomaria este sentimento com o passar do tempo, da vida. Estava descobrindo o sabor do álcool e a delícia de fazer tudo o que fosse ilícito. O que me causava inquietação era quase sempre efêmero. Havia rotina e estrutura e uniforme. O leito por onde eu correria me levaria a desaguar num mar de estabilidade.

Ao abrir outra vez os olhos, estava no hoje, no agora. Quase vinte e um anos, um desassossego transbordante e nenhuma certeza. Alguns resquícios de outrora, no entanto, ainda se fazem presentes: a mesma propensão a paixões fugazes e o mesmo encanto pelo proibido.

Aquele momento suscitou sentimentos tantos que não saberia transcrever – talvez devesse ter sacado meu caderninho ali mesmo e anotado umas palavras chaves para lembrar depois. Só sei que me invadiu uma sensação de liberdade que não sentia há tempos. Tive a realização de que existem sim pontos finais e que eles não precisam ser dolorosos.

Vê-lo foi deliciosamente surreal e nostálgico. Ele foi o primeiro de uma série de platonicidades que me serviram de material para várias historietas. Foi quem me causou minha obsessão por groupies e minha vontade de tornar-me uma. Foi quem me despertou um olhar mais safado sobre meus professores de História.

Eu espero que ele seja muito feliz.

sábado, 8 de setembro de 2012

oh céus

Um dos amores de minha vida me cuidou durante meu processo de cura de uma grande paixão. Foi meu melhor amigo durante algum tempo, meu namorado durante algum outro. Quando começamos a compartilhar cama, antes mesmo de isso ter qualquer conotação sexual, ele enxugava minhas lágrimas todos os dias nos quais acordava mal e dizia assim, baixinho:  "tienes que dejar de llorar por las mañanas...".
Hoje passamos uns minutinhos ao telefone e foi a primeira vez em quase dois anos que ouvimos a voz um do outro. Foi tão surreal que quase não soubemos o que dizer. Nos separam milhas e milhares de vivências. Nos une este passado e o fato de sermos os dois uns desassossegados.
Pensei em dizer-lhe que se ele dormisse comigo nos últimos tempos, com certeza me diria que eu deveria parar de chorar nas noites. Este hábito chegou junto com a agonia de sentir-me presa ao passado, à mesmice, à capital.
Minha felicidade se extingue cada dia mais, e com ela vai embora até minha vontade de escrever.
Sou um nada aqui. Quero ir embora mais do que qualquer coisa.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

cadê o meu agora?

Sinto o coração cada vez mais apertado com a realização de que minha felicidade se encontra em pastas de foto no computador, caixas no armário do quarto e postais que chegam pelo correio.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

uma linha e meia


Demorou quase duas semanas para que houvesse comunicação entre nós.
Minha vontade, obviamente, era escrever-lhe contando os mínimos detalhes de minha vida após sua entrada nela, todas as inquietações que a presença de um oceano literal entre nós me causava. Ou, não sei, falar de assuntos do dia-a-dia, que a maneira tão diferente como experienciamos os momentos tornaria qualquer que fosse o pepino cotidiano algo interessante de compartilhar. O que me impedia de fazê-lo era o fato de não saber como a informação alcançaria o outro lado da tela. Ainda que uma das coisas mais instigantes entre nós era exatamente este não saber absolutamente nada - éramos um grande mistério um para o outro, ávidos por descobrir-nos - há um ligeiro medo envolvido nesta nossa conexão.
Foi com muita surpresa que me chegou uma mensagem sua ao nascer o sol na manhã de ontem - para ele já era quase um meio dia de verão. Imagino-o de cabelos molhados em sua sala de móveis, paredes e pisos brancos. Milhares de filmes e livros de arte nas várias prateleiras. Foto da filha na mesa ao lado do sofá. Uma vitrola e vários discos de jazz em volta. Um par de livros de literatura francesa entre as almofadas. Ele fumaria um cigarro olhando a vida acontecer do lado de fora da sua janela. Pensaria na razão para quase ter perdido o avião que o levou da América de volta ao Velho Continente. Sentaria em frente ao seu computador e tomaria uma eternidade entre uma palavra e outra do que me viria a enviar.
Tudo isso, no entanto, não passa de meus desejos sendo tomados por realidade. Só o que sei com certeza é que para escrever-me uma linha e meia, incluindo nesta uma insinuação de afetuosidade e referência a uma brincadeira íntima, ele provavelmente levou o mesmo tempo que eu para apagar metade do que havia redigido e deixar minha resposta o mais sucinta possível, com apenas quatro parágrafos de quase dez linhas cada.
Foi bem nesse momento que percebi que esse "nós" tem certo risco de fracassar.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

muse fortuite V

Sei que há maiores possibilidades de encontrá-lo a caminho do Nordeste, num ônibus caindo aos pedaços que quebraria cinco vezes durante o caminho. Ou ainda depois de um show do Gil  nos subúrbios da capital riograndense, todos absolutamente apaixonados por aquela fera septuagenária que ainda consegue bailar da primeira à última música nestes palcos da vida. Ainda assim, é incontrolável essa mania de buscá-lo pelas superquadras desta cidade. Aprendi dessa forma, de tanto procurar por suas pegadas nos meios-fios, que cair de amor na capital federal se faz perigoso pelo tanto de concreto que há em suas ruas.
Ah, e como não tentar vê-lo na multidão de um domingo como este? Sabendo que, como poucos, ele responde afirmativamente às duas perguntas essenciais na busca do homem perfeito - fala francês? gosta de jazz? - não é de se estranhar que estivesse com meu binóculo a postos, buscando entre conhecidos e desconhecidos que se maravilhavam com o som alucinante dos Dukes of Dixieland aqueles olhos de ser místico.
Nem o vi, pobre de mim. E sigo na vã busca da magia cigana de ma muse fortuite.

sábado, 4 de agosto de 2012

rendez vouz

Ele me causou um curto-circuito tão intenso que desde sua aparição não fui capaz de escrever um só continho, uma só crônica, uma só receita de bolo. Mal durmo. Depois de três parágrafos de um livro já sou sugada pelo repuxo do mar das memórias com ele.