sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

memórias de meu chamo.

Nos conhecíamos de vista, eu e ele, porque meu quarto era ao lado da porta da residência à qual ele visitava com frequencia. Nos conhecíamos de vista e não tínhamos a mínima pretensão de tornarmo-nos amigos, a garota que andava de sutiã pela casa e o garoto que só usava listras. Nos conhecíamos de vista e não havia nada que nos fizesse pensar, a guria que tinha o boteco mais próximo como segunda casa e o guri que não saía na sexta à noite, que teríamos vida em comum, coisas a compartilhar. Nos víamos, nos saudávamos à distância e seguíamos nossos caminhos.
Foi do meu tédio que surgiu nossa amizade. Fui fazer um chá na cozinha e lá estava ele, em seu computador, na mesa da cozinha. Coloquei a água no fogo e lhe toquei os ombros como se fôssemos íntimos. Senti-o eriçar-se, morrendo de vergonha. Segurei o riso e lhe falei em espanhol, lhe perguntei disso e daquilo, e quando a água atingiu seu ponto de ebulição já havia carinho entre nós suficiente para gerar sorrisos em soldados em campo de batalha. Foi bem assim que aconteceu.
Posso dizer que nosso amor cresceu a passos lentos, passos estes que dávamos por corredores abertos em noites frescas de outono. Passávamos horas e mais horas descobrindo com sede sôfrega um ao outro. Nunca descobri o motivo, mas a verdade é que comecei a precisar de uma dose noturna dos encantos dele para sobreviver ao dia seguinte, e provavelmente o mesmo aconteceu a ele. E na cadência de nossos passos, compusemos nosso tango.
(...)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

do dia no qual minha aula foi cancelada por motivos obscuros.

Um dia acordei sem vontade de ter aula de direção. É que dirigir nunca esteve no meu hall de Coisas Que Me Encantariam Aprender. Na verdade, esteve mais no de Coisas Que Nunca Faria Caso Tivesse Plata Para Tal. Porém, não tenho plata para tal e aos 20 anos fui obrigada a tomar aulas de direção.
No dia supracitado quis com muito ardor não ter aula. Tentei não desejar o mal à instrutora. Tentei e tentei e não consegui, foi mais forte que eu. E a pobre da instrutora, ai ai ai... teve uma indigestão das brabas, daquelas que te fazem desejar a morte à um sofrimento intenso assim. Isso foi ela que me contou na aula seguinte.
Quando ela entrou de férias, me coube ter aulas com um negão carioca que me fazia escutar os sambas do Carnaval 2012 da Sapucaí e tinha em seu retrovisor patuás de tudo que era religião, brasileiras e estrangeiras.
- São presentes de ex-alunos. Quem sou eu pra não acreditar na força de cada um destes elementos? Deixo tudo aí.
E aí veio novamente aquela vontade de não ter aula; chovia e dirigir na chuva, sabe como é, né? Né? Né. Não queria, não queria, não queria. Sentei no pilotis do bloco, agradecendo aos céus por cada carro que não era um Pálio, não era vermelho e não tinha AUTO-ESCOLA escrito em negro sobre um fundo amarelo. Ainda lutava contra meu impulso de desejar o mal ao próximo, mas às vezes esse moléstia se faz demasiadamente intensa em mim.
Vinte minutos de atraso e subi triunfante de volta à casa. Já com o telefone na mão, pronta para ligar para a tal auto-escola e remarcar minha aula, ouvi a buzina do temeroso carro. Pálio, vermelho, AUTO-ESCOLA.
Peguei minha bolsa, meu casaco, pus de volta os sapatos de dirigir. Coloquei a chave na porta e girei, desolada. E ela parou, ficou presa. Presa a chave na porta, presa eu ao apartamento. Girei para todas as direções possíveis e nada dela se mexer. Nessa hora o senhor já havia interfonado, avisado de sua presença à minha espera. À minha espera, à minha espera... estava eu à tua espera durante os últimos vinte minutos!
Toda a situação me pareceu um tanto quanto engraçada. Ele falando no celular - como sempre - debaixo do meu bloco. Eu não conseguindo pensar em nenhuma outra solução que não chamar o Super-Homem para me resgatar - que seja subentendido que o tal Super-Homem é meu pai. A chuva caindo cada vez mais forte.
Pensei que o universo é engraçado, que ele encontra maneiras muito únicas de nos ensinar lições. Pensei que a energia do querer é muito mais forte do que nos apetece acreditar. Pensei que só é realmente forte quem sabe trabalhar essa energia a seu favor - às vezes carregando consigo quantos patuás couberem em sua bolsa ou retrovisor.

domingo, 8 de janeiro de 2012

estranhas endorfinas

Desfez-se o nó em minha garganta.
Acalmou-se a taquicardia.

Me dizem volúvel.

Eu digo não sei.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

jogando tudo fora I

- Seus livros ainda estão nas prateleiras da parede, perfeitamente desalinhados. Suas contas se espalham pela mesinha do telefone, algumas abertas. Suas fotos de família seguem ali, onde ele nunca precisaria vê-las. Elas sempre serviram para que os visitantes presumissem que ele tivesse qualquer coisa batendo dentro do peito. A verdade é que tudo continua absolutamente no mesmo lugar onde estiveram nos últimos anos.

- E o que te faz pensar que ele foi embora?

- Minha escova de dentes dormiu sozinha noite passada.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

estive aqui, mas estive longe.

São quatro da manhã e eu escuto o novo single do The XX... e eu não deveria estar pensando em você. Na verdade, The XX me traz memórias de um amor outro, de uma época onde nem imaginei que estaria eu naquele ônibus de merda que me levou pra'quela cidade praiana onde te conheci. Me traz memórias de um amor que nasceu, viveu e morr... e vive platônico até o dia de hoje. O engraçado desse amor é que ele existe de ambos os lados, mas o destino, o acaso, o universo ou todos eles juntos sempre trataram de mantê-lo num plano tão absurdo que ele nunca teve chance de acontecer. Bom, isso até aquele dia quando fechei de vez minhas malas e chorei o choro mais doído da vida. Ele veio me abraçar e foi a última vez que senti seu cheiro tão seu, que costumava sentir toda vez que abria seu quarto pra falar de qualquer coisa que fizesse parar o tempo. Naquela tarde eu o desconcertei tanto com meu pranto que ele teve que me beijar para me calar. Nunca mais falamos sobre isso.
Nossa, The XX também me lembra uma outra insinuação de amor. De uma e outra noite quando comi cerejas e tomei rum com um garoto de beleza mística que muito me cativou. De ouvi-lo dizer que o protagonista de The Catcher in the Rye tinha características em comum com ele. De ouvir suas histórias da Índia e da Bélgica. Me lembro de sentir borboletas no estômago quando ele disse "hey, can I come over to get XX songs? I really like them". Oh, como não me sai da memória a primeira vez que me deparei com os olhos mais azuis... É que chovia e os pingos gelados me estavam quase ferindo a pele, eu só queria entrar de novo no táxi vermelho que me levaria para casa. Mas eu o olhei e por tanto tempo desejei continuar naquele olhar de olhos para que pudesse guardar para sempre todos os traços de seu rosto, as marcas em sua pele, as nuances de seu cabelo.
The XX me remete a lugares tão longes, tão guardados dentro de mim. E ainda assim, nesta noite de verão, escuto The XX e lembro de uma lembrança não tão longínqua, não tão passado quanto as contadas anteriormente. Faz-me pensar em ti e no teu cabelo não cortado. Faz-me pensar que eu queria te abraçar mais forte e dizer que me faz falta passar tempo na tua cama. Sei lá, me faz pensar que... Sei lá.

PS.: escrito sob efeito de coração partido e álcool. Não foi nem será revisado. Tampouco será excluído, posto que é fruto de um sentir intenso que não deve ser ignorado.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

california dream.

Real happiness would be going to the beach with you, lover, those stunning white sand beaches you always told me about. We would run to the shoreline and just stand there as the smell of the ocean would get us drunk and the beauty of the moment would get us high. The sun would make you frown a bit, just enough to make those little wrinkles show around your eyes. And then you would look at me and smile, lover, and then you would take my hand and run towards the sea. We would stop for a while once the water touched our feet and we would run again. It didn't really matter we still had our clothes on. It didn't really matter we'd have to spend the rest of the day all soaked and salty. It didn't really matter we'd get the sits of your convertible wet. Nothing mattered more than making sure every minute we spent together was something marvelous to remember later.

feliz amor velho.

Eu queria que este sentir intensamente não se fizesse tão palpável como aconteceu durante todo o dia de hoje. Queria não estar a ponto de desabar em prantos cada vez que mostrassem como foi a queima de fogos de fim de ano em diferentes capitais do mundo. Desejo mais do que nunca que o mundo torne-se a Pangeia de milhões de anos atrás. Saudade me dói como há muito não doía.