Sinto o coração cada vez mais apertado com a realização de que minha felicidade se encontra em pastas de foto no computador, caixas no armário do quarto e postais que chegam pelo correio.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
uma linha e meia
Demorou quase duas semanas para que houvesse comunicação entre nós.
Minha vontade, obviamente, era escrever-lhe contando os mínimos detalhes de minha vida após sua entrada nela, todas as inquietações que a presença de um oceano literal entre nós me causava. Ou, não sei, falar de assuntos do dia-a-dia, que a maneira tão diferente como experienciamos os momentos tornaria qualquer que fosse o pepino cotidiano algo interessante de compartilhar. O que me impedia de fazê-lo era o fato de não saber como a informação alcançaria o outro lado da tela. Ainda que uma das coisas mais instigantes entre nós era exatamente este não saber absolutamente nada - éramos um grande mistério um para o outro, ávidos por descobrir-nos - há um ligeiro medo envolvido nesta nossa conexão.
Foi com muita surpresa que me chegou uma mensagem sua ao nascer o sol na manhã de ontem - para ele já era quase um meio dia de verão. Imagino-o de cabelos molhados em sua sala de móveis, paredes e pisos brancos. Milhares de filmes e livros de arte nas várias prateleiras. Foto da filha na mesa ao lado do sofá. Uma vitrola e vários discos de jazz em volta. Um par de livros de literatura francesa entre as almofadas. Ele fumaria um cigarro olhando a vida acontecer do lado de fora da sua janela. Pensaria na razão para quase ter perdido o avião que o levou da América de volta ao Velho Continente. Sentaria em frente ao seu computador e tomaria uma eternidade entre uma palavra e outra do que me viria a enviar.
Tudo isso, no entanto, não passa de meus desejos sendo tomados por realidade. Só o que sei com certeza é que para escrever-me uma linha e meia, incluindo nesta uma insinuação de afetuosidade e referência a uma brincadeira íntima, ele provavelmente levou o mesmo tempo que eu para apagar metade do que havia redigido e deixar minha resposta o mais sucinta possível, com apenas quatro parágrafos de quase dez linhas cada.
Foi bem nesse momento que percebi que esse "nós" tem certo risco de fracassar.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
muse fortuite V
Sei que há maiores possibilidades de encontrá-lo a caminho do Nordeste, num ônibus caindo aos pedaços que quebraria cinco vezes durante o caminho. Ou ainda depois de um show do Gil nos subúrbios da capital riograndense, todos absolutamente apaixonados por aquela fera septuagenária que ainda consegue bailar da primeira à última música nestes palcos da vida. Ainda assim, é incontrolável essa mania de buscá-lo pelas superquadras desta cidade. Aprendi dessa forma, de tanto procurar por suas pegadas nos meios-fios, que cair de amor na capital federal se faz perigoso pelo tanto de concreto que há em suas ruas.
Ah, e como não tentar vê-lo na multidão de um domingo como este? Sabendo que, como poucos, ele responde afirmativamente às duas perguntas essenciais na busca do homem perfeito - fala francês? gosta de jazz? - não é de se estranhar que estivesse com meu binóculo a postos, buscando entre conhecidos e desconhecidos que se maravilhavam com o som alucinante dos Dukes of Dixieland aqueles olhos de ser místico.
Nem o vi, pobre de mim. E sigo na vã busca da magia cigana de ma muse fortuite.
sábado, 4 de agosto de 2012
rendez vouz
Ele me causou um curto-circuito tão intenso que desde sua aparição não fui capaz de escrever um só continho, uma só crônica, uma só receita de bolo. Mal durmo. Depois de três parágrafos de um livro já sou sugada pelo repuxo do mar das memórias com ele.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
meu café frio e um sol de meio dia.
Na minha frente, uma página branca de Word e na minha cabeça o mundo inteiro. O mundo inteiro e nada se misturam e acabam por se converter em um mesmo que. E a página continua branca.
Voam ideias no ar ao meu redor, mas não consigo segurá-las. É imensuravelmente difícil ser coerente, linear, fazer sentido. Está fora do meu alcance escrever o que não sou. E o que mais não sou na vida é coerente. Linear. O que menos faço na vida é sentido.
(abril de 2012)
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Diana,
tô tomando chá de laranja e especiarias adoçado com mel, como se me tornasse a antiga eu novamente. Mesmo que apenas pelo espaço de tempo que se leva para tomar uma xícara de chá. Ontem à noite choveu em Brasília, imagina o céu caindo em julho neste cerrado tão seco. Nem vi acontecer. Só vi os resquícios que a precipitação deixou no asfalto. Minhas paixonites crescem exponencialmente, como se amor fosse consequência imediata de um olhar mais fundo nos olhos. E quando estou segura de que já não tenho mais coração pra abrigar tanto amor, eis que mais alguém faz espaço ali dentro. É minha sina amar demais. É minha sorte também.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
salvação
São curiosos os pensamentos que surgem em caminhadas solitárias. É como se as milhares de experiências pelas quais passamos formem uma costura e finalmente façam sentido em meio ao caos que é a vida. Por isso aprecio tanto os momentos que tomo para mim.
O universo me permitiu uma boas horas sozinha na noite de hoje e já no final dela, caminhando em direção ao ponto de ônibus, me lembrei de uma noite em um café brasiliense. Estava com três outras mulheres, todas elas em seus vinte e muitos anos, e falávamos de amor - tópico recorrente em muitas de minhas conversas. Não só de amor mas de buscas, de aspirações no âmbito afetivo.
É necessário dizer que estava atipicamente calada esta noite, desconfortável em compartilhar minhas experiências com a mesa. Estranhamente sentia a impressão de que qualquer coisa que dissesse pareceria tola, que meus escassos vinte anos não me davam bagagem suficiente para acompanhar aquele bate-papo. Ou talvez estivesse distraída demais pelo delicioso sabor do enorme café que pedira já no início da noite. Não saberia dizer bem a razão, mas algo me deixara na posição de observadora da interação alheia.
Entre muitos tópicos discutidos, um deles me deixou bastante pensativa durante muito tempo. Foi bem ele que me voltou à mente na noite de hoje, não mais como questão a ser respondida. Elas falavam do que costumavam buscar em suas relações afetivas há alguns anos e o que buscavam agora.
Bom, foi aos treze anos que comecei a pensar relacionamento. Foi bem ali que surgiu aquele primeiro amor arrebatador cujas características tornam-se parâmetro para vários outros amores até que você finalmente perceber que amor de adolescência é amor de adolescência, e passa. Olhando para trás, passando um por um até aquele mais antigo amado, foi possível perceber um padrão claro.
Muito mais do que o encanto causado pelos atributos físicos ou intelectuais do meu objeto de afeição, era o meu momento que definia o que aconteceria entre nós. E eu, como boa chica Almodóvar, estive constantemente Al Borde de un Ataque de Nervios, o que me levou a sempre procurar salvação no outro.
E perceber isso me fez apreciar muito, muito mais o fato de estar sem ninguém, caminhando sob uma lua inesperadamente grande. Prezei em demasia o fato de que é bem assim que consigo ter os mais poderosos insights da vida. Só assim que posso me salvar.
Hoje, e talvez só por hoje, sou o único amor do meu agora.
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