terça-feira, 22 de janeiro de 2013
"a gente é rascunho de pássaro"
Aconteceu certa noite de nos atrasarmos para a mesma peça. Desde então, não precisei mais de acaso algum para encontrá-lo. Dessa noite em diante, foram ocasos e alvoradas, vinhos e cigarrillos, angústias e alegrias compartilhadas, duas vidas entrelaçando-se organicamente, entrando em eixos que rumam a caminhos similares sem esforço algum.
Encontrei abrigo imediato em seu abraço e no sofá de sua sala. Nos Nerudas pendurados pela parede. No altar da varanda. Já perdi a conta dos teóricos ocidentais e dos pensadores orientais que fomentaram reflexões conjuntas acerca da maneira como desejamos viver a vida. Tampouco teria recibos para os poetas que nos encantaram com seus versos entre nuvens de fumaça.
Numa dessas noites, velas iluminando o quarto com luz alaranjada, An Awesome Wave tocando pela segunda vez seguida, chuva do lado de fora e ele me pedindo cafuné, me dei conta:
- Você acabou com minha possibilidade de ter um relacionamento afetivo com qualquer pessoa que não seja assim, sei lá... você!
Pode ser que nosso estado de lua de mel esteja ludibriando meus sentidos. Encontro-me completamente incapaz de encontrar defeito algum neste ser humano. Sinto cada dia mais vontade de participar de momentos ao seu lado, sejam estes felizes ou desgostosos. Este ser de tranquilidade tão contagiante tornou-se parte de mim. Parte tão integrante (e intrigante) que completa de maneira mais do que bela os diálogos do filme que é minha vida:
- Quero essa tranquilidade... alguém que me dê vontade de passar as noites de segunda-feira escutando boa música na cama.
- Ah, faz isso comigo.
(E me puxou mais para perto de si, fazendo de mim a cucharita de fora de nossa conchinha)
domingo, 20 de janeiro de 2013
sobre mudanças de estação dentro de mim
Há alguns anos li em Orgias, de Luis Fernando Veríssimo, uma das mais belas descrições de feminino que já passou por meu caminho. "As Outonais" não é nenhum clássico da literatura: fala das mulheres e das estações de forma humorada, como se espera do autor. Por alguma razão, no entanto, me marcou aquela adoração da mulher outonal, que me pareceu tão sóbria e um tanto misteriosa. O absoluto oposto da primaveridade de quem vos escreve.
Anos se passaram; mudei de país, sobrevivi a terremotos, descobri a profundidade do amor na língua espanhola, viajei entre montanhas em um ônibus escolar estadunidense reciclado, aprendi a dança indiana de Bollywood, escalei vulcões ativos, consegui um diploma de International Baccalaureate. E voltei à cidade natal. Por vontade própria, voltei a viver na vila onde nasci. De alguma forma, me senti forçada a suprimir em parte o turbilhão de vida que havia bebido num só gole para não causar estranhamento ao vilarejo que presenciou meu primeiro abrir de olhos. Pensei que essa Brasília não suportaria ver sua filha tão diferente.
Isso causou um dilaceramento de algo dentro de mim. Eu caminhava em direção a um Outono de promessas de mais tranquilidade, e tal jornada foi interrompida de maneira tão... insensível. Outro tanto tempo passou até que sentisse força suficiente para mudar o que não me fazia bem. Decidi mudar de estação de vez: algo entre "deixar de adoçar as coisas e não ter medo de andar de bicicleta entre os carros". Vivenciei certos issos e aquilos que me afastaram da Primavera. Eu era quem tinha inventado de ser.
Só que há uns dias me veio uma percepção distinta.
Já não me preocupo com minha estação. Não me ocupo com intentos de encaixar-me em molde X, em molde Y. Agora tanto faz tomar chá preto com limão ou adoçá-lo com mel: é tudo parte de mim. Os mais diversos tipos de sapatos me calçam os pés. De tentar ser outra, me refiz em ser que abrange. Sou um todo, sou tudo. O mais importante disso é que agora compreendo a beleza de ser primaveril. Perdoo-me por ser estabanada, pela falta de regras. Entendo o papel do colorido de minhas pétalas nos dias nublados. E adoro, cada dias mais (!), tanto um bom frege quanto tons de bege.
sábado, 19 de janeiro de 2013
tu est très mignon #1
Não me atrevo a negar: gostei sim de conhecer-te. Desbravar tua timidez e descobrir que tua pele toda é de um mesmo tom etéreo foi uma aventura incrivelmente prazerosa. Fiquei maravilhada com as sensações causadas por nossas intensas trocas de fluidos. Encantei-me com o quão confortável é teu corpo tanto como cobertor quanto como travesseiro.
Pensei em chamar-te para dançar nessa sexta-feira. O sol deu o ar de sua graça durante grande parte da manhã e da tarde, o pôr dele chegou durante uma belíssima prática de Pranayama; nada mais lógico que terminar a noite exausta entre teus lençóis. Só que "a vida é fluida", me disse há tempos minha gueixa. Aconteceu de muito amor brotar em meu caminho durante a longa madrugada que se findou há pouco e faltou ocasião para tuas carícias.
A conclusão a que cheguei é que construí durante estes anos terrestres tantos alicerces, paredes e telhados de amor fraterno que qualquer rascunho de amor afetivo ameaçando entrar na casa desavisadamente não oferece tanto perigo, já que as portas e janelas não abrem com tanta facilidade. Refugiei-me no calor amistoso de uns e outros na certeza de nunca estar só.
Só que amar é multiplicar... e dentro de mim quero que caiba um mundo inteiro. Quero que se abra meu esterno para que nada segure o agigantar-se de meu coração. E quero fazer espaço para que me invadas, quero que tenhamos tempo para vivenciar a delícia desse nós da maneira mais heterodoxa possível.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
domingo, 16 de dezembro de 2012
sábado, 1 de dezembro de 2012
"on a drive from solution to surface"
Recebi uma carta numa terça-feira à noite contendo um pequeno abalo sísmico. Desde então encontro-me em dois lugares ao mesmo tempo - situação que vivi durante alguns bons meses no passado e ainda assim me deixa bastante desconfortável. Este estado de não-ser-não-estar-não-sentir me levou a negligenciar umas muitas coisas bastante relevantes. Devo dizer que me deixou bastante preocupada não ser capaz de me importar... senti que veria tudo ir água abaixo e não conseguiria levantar uma palha para impedir.
Até que nessa madrugada de segunda-feira algo aconteceu:
abri uma janela do Word. Escrevi uma palavra, uma linha, um parágrafo, dois. Carta feita. Enviada. Dedos cruzados e um álbum de nome Europe tocando sem parar nos meus fones cor-de-rosa. Muita, muita paz.
E me veio a cabeça uma constatação que tive numa dessas noites de tomar chá aromático na madrugada brasiliense, falando de amor e inquietação. Eu disse à minha gueixa que as coisas advêm do desejo e ela imediatamente respondeu que não, além de mostrar-me que sou a última pessoa do mundo que deveria crer nisso.
A verdade é que no decorrer de minha vida encontrei muito mais lugar para acasos incríveis do que para realização de sonhos. Por essa razão, fico tranquila com os caminhos pelos quais sou forçada a seguir. Desassossego, reclamo, proclamo as maiores injúrias, eu sei. Porém bem dentro de mim sei que vai me levar exatamente onde devo ir.
Então é isso, destino... universo... é isso. Tá aí. Coloquei mais uma vez na palma de tuas mãos.
Ajude-me a encontrar outra vez os caminhos que me levam para o mar que me chama.
A verdade é que no decorrer de minha vida encontrei muito mais lugar para acasos incríveis do que para realização de sonhos. Por essa razão, fico tranquila com os caminhos pelos quais sou forçada a seguir. Desassossego, reclamo, proclamo as maiores injúrias, eu sei. Porém bem dentro de mim sei que vai me levar exatamente onde devo ir.
Então é isso, destino... universo... é isso. Tá aí. Coloquei mais uma vez na palma de tuas mãos.
Ajude-me a encontrar outra vez os caminhos que me levam para o mar que me chama.
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